quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Savana - da Neriquinha ao Rivungo


Não houve tempo para explorar a Neriquinha. Para o meu grupo de combate, incumbido de render o grupo destacado no Rivungo, a viagem ainda não terminara. Comandado pelo alferes Fausto e coadjuvado por três furriéis (eu, o Duarte e o Silva) estava já preparado para partir, devidamente reforçado com os necessários especialistas: um cozinheiro, um enfermeiro, um radiotelegrafista, um transmissões, dois condutores e um corneteiro, somando o conjunto, cerca de 30 homens.
Engoli o almoço à pressa, apertei o cinturão, convenientemente apetrechado com cartucheiras, cantil e demais equipamento, agarrei na G3, atirei o saco com as tralhas para cima da berliet, tomei assento ao lado do Duarte, que já se instalara junto ao condutor e sob um sol inclemente, iniciámos a marcha em direcção à clareira que, parecendo dar continuidade à pista, apontava para sul.
As duas berliets rolavam uma atrás da outra, arrastando-se bamboleantes, numa marcha lenta, com os motores em esforço, lutando contra a falta de consistência do terreno arenoso que cedia facilmente sob o seu peso, vencendo penosamente cada metro de picada e sacudindo a sua carga, por efeito das irregularidades do terreno, que a dureza da suspensão não compensava, ameaçando cuspir quem não se agarrasse com firmeza. A picada, nome dado às únicas estradas que por ali existiam, reduzia-se a dois sulcos profundos, abertos pelos rodados das viaturas, num percurso sinuoso pela savana, ora penetrando na mata de árvores de pequeno porte, ora bordejando a zona não arborizada, normalmente alagada, a que os locais chamavam de chana.
Era o primeiro encontro com a temível picada e todo o conjunto envolvente, verdadeira materialização do teatro de operações que, até então, se limitara a uma antevisão imaginária de densas e perigosas matas, onde deveríamos aplicar as técnicas militares aprendidas, desde o rastejar à queda na máscara, passando da cambalhota em frente ao salto de peixe e toda a panóplia de artes destinadas a baralhar o inimigo. A realidade presente revelava-se diferente, onde cada momento, cada troço daquele cenário, constituía uma sucessão de quadros, desenrolando-se à nossa volta e trazendo novas sensações, novidades, temores, êxtase, certezas e incertezas de um mundo desconhecido que, dentro de algum tempo, se tornaria familiar. Nada se parecia com a tenebrosa mata que imaginara, cerrada, ameaçadora, escondendo mil e um perigos. Pelo contrário! Ali, tudo era plano. Nem a mais pequena elevação de terreno, morro ou encosta que pudesse acoitar o inimigo. Quanto à mata, o tipo de arvoredo deixava ver nitidamente a uma distância razoável para o seu interior, reduzindo os meus temores. Apenas o capim me preocupava. Esta vulgar erva africana crescia viçosamente por todo o terreno como seara verde, atingindo com frequência altura superior à de um homem, podendo perfeitamente esconder um mundo de gente sem que se desse por isso.
Esquadrinhava cada pormenor, num misto de curiosidade e apreensão, procurando, por um lado, identificar a eventual ameaça e por outro, desfrutar de um cenário sem igual. Ora tenso, ora descontraído, embora não pensando seriamente na iminência de um ataque, agarrava firmemente a G3, bala na câmara, pronta a disparar, não fosse o diabo tecê-las. Ao meu lado, o Duarte não ia mais descontraído. Pelo menos agarrava a arma com convicção idêntica, muito embora não se vissem condições, no acidentado do terreno, que fizessem lembrar as características que, durante a instrução, aprendêramos a identificar como as que poderiam esconder uma emboscada.
A região, encalacrada entre dois grandes desertos africanos (o Kalaari de um lado e o de Moçâmedes do outro) era marcada pelas suas influências. O terreno, para além de plano, era irritantemente arenoso, definindo uma paisagem de savana que se impunha de forma evidente. Por ali, nem sequer um seixo do tamanho de um caroço de azeitona podia ser encontrado. Quanto ao resto, imperava o clima tropical, caracterizado por ter duas estações no ano: a das chuvas, quente e húmida e a do cacimbo, nome herdado da neblina que, na época seca, invadia a região e que durante a noite, especialmente sobre a madrugada, fazia baixar a temperatura ao ponto de congelar as gotas do orvalho. Aliás, as gélidas noites do cacimbo, contrastando com a canícula que se fazia sentir durante todo o dia, desde a aurora até para lá do ocaso, determinavam amplitudes térmicas impensáveis, próprias dos desertos africanos.
Castigados pelo sol inclemente, empapados em suor, ao qual se colava o pó fininho e escuro que nos envolvia, já levávamos mais de duas horas de sacudidelas por uma picada paralela à chana que, espraiando-se à nossa direita, definia os limites do domínio do rio Cúbia, cujo caudal, disfarçado no meio da vegetação, alimentava o assomo de pântano à sua volta.
As pontes do Cúbia, ponto de referência no trajecto entre a Neriquinha e o Rivungo, constituindo o único local de passagem para a outra margem, não era mais do que um amontoado de terra despejada sobre a zona alagada, formando uma espécie de barreira, no topo da qual, o tempo deixou que se formasse uma picada irregular. Ponte propriamente dita, apenas dois curtos e estreitos pontões em cimento, construídos sobre a única parte em que o Cúbia deixava ver o seu tímido caudal, cujo volume crescia significativamente na época das chuvas. Era a existência destes dois tabuleiros, construídos alguns meses antes,que justificava o facto de o local ser conhecido por pontes do Cúbia, no plural.
Por razões de segurança, (na altura, não descortinei se da ponte, se nossa em caso de ataque) a passagem por este caminho tinha de ser feita a pé. As viaturas passariam vazias e sempre devagar.
A chana do Cúbia, aumentada na sua extensão e povoada aqui e ali de manadas de animais semelhantes a grandes gazelas que pastavam saltitando dentro de água, alargava-se agora do lado esquerdo da picada.
- São songs.
Gritou o condutor, procurando sobrepor a sua voz ao barulho da berliet.
- A sua carne é excelente.
Acrescentou, para de seguida concluir.
- O pior é que só as podemos atingir no meio da água e é quase impossível ir lá buscá-las.
- Há por aqui muita caça?
Perguntei, apenas movido pela curiosidade.
- Sim, muita e variada, mas nesta altura do ano, está enfiada na mata.
- Não percebo!
Retorqui.
- Com as chuvas, há muita erva no interior da mata e os animais não precisam vir comer às chanas, onde normalmente há pasto todo ao ano.
Esclareceu.
Estávamos em Novembro, época das chuvas, não demorando muito até que começasse a chover, assim, de repente, sem aviso prévio e sem pedir licença, uma chuva diluviana, intensa, como se baldes de água fossem continuamente despejados do céu, criando uma cortina de água que apenas deixava ver alguns metros adiante. Em África é assim; num momento, impera um sol abrasador e no momento seguinte, chove a cântaros. Para nos proteger, apenas o poncho, já que, por ali, as viaturas não tinham nem pára-brisas nem tejadilho e até o capô, sobre o motor, tinha sido retirado, como forma de minimizar o seu aquecimento, levado ao máximo pelo esforço necessário para vencer a resistência daquele terreno de areia.
O Duarte, a meu lado, desabafava agastado, por não conseguir acender o cigarro que insistia em não largar mesmo debaixo daquele mundo de água. Até então, fumara cigarro após cigarro, sem os tirar da boca. As mãos, mantinha-as ocupadas a segurar a G3. Quanto ao poncho, um impermeável militar eficaz, apenas nos protegia da cintura para cima. Com a água a escorrer por todos os lados, era como se estivéssemos sentados sobre um charco. Mas isso não era o pior. A água que se ia acumulando no sulco trilhado pelas viaturas, misturada com a areia e lama da picada, era impelida para cima por acção do chapinhar dos pneus e acto contínuo, aspergida contra a nossa cara pelas pás da ventoinha, borrifando-nos generosamente com uma espécie de polme lamacento, com uma frequência irritante.
Caiu a noite, ainda mal vencêramos metade do percurso, transformando a paisagem, num escuro pesado, adensado pela persistente chuva, apenas deixando ver fugidias sombras projectadas pelos faróis.
- Uma emboscada agora, tramava-nos.
Atirou o Duarte, deixando talvez sair o temor que lhe ia na alma.
- Não creio, os turras têm medo da chuva.
Respondi, tentando gracejar.
- Achas? A esta velocidade, basta apontarem um pouco acima dos faróis e acertam-nos.
Insistiu.
- O que eu acho é que, se nós não vemos nada nesta escuridão, eles também não.
Referi, procurando justificar o meu ponto de vista.
- Tanto mais que o Castanheira e os condutores, que já cá andam há muito, parecem perfeitamente descontraídos.
Rematei.
O Castanheira era o Furriel da outra companhia, que fora incumbido de nos levar ao destino e claro, ao volante, estavam condutores dos velhinhos. Na volta, era necessário trazer o pessoal que estava no Rivungo e os nossos ainda não conheciam os itinerários.
Mais ou menos para lá de metade do percurso, uma breve paragem para uma apresentação dos agentes da PSP que, para surpresa minha, tinham por missão a defesa e apoio das populações autóctones que habitavam os três Kimbos por ali localizados: o Liahona, no outro extremo de uma extensa chana alagada, seguido, a uma distância razoável, do Mugamba e finalmente o Demba, pequenos aldeamentos constituídos por aglomerados de cubatas de capim, isolados no meio do mato. A noite, que entretanto caíra, não deixara perceber a insegurança e precariedade em que viviam aqueles agentes da autoridade (dois em cada kimbo) já que a população, vivendo no seu meio e não conhecendo outro mundo, negava-se a dali sair.
Apresentações feitas e concluída a rápida conversa de circunstância, seguiu-se viagem pela picada sinuosa, trilhada pelas berliets que pareciam conhecer o caminho, alcançando-se finalmente o Rivungo já a noite se instalara havia tempo, decorridas cerca de oito horas após a saída da Neriquinha e percorridos pouco mais de 120 Km.
A impaciência, não disfarçada, de quem aguardou o dia inteiro pela nossa chegada, apressou os formalismos da passagem de testemunho e da responsabilidade por tudo o que por ali havia. O alferes encarregou-se de receber o material de guerra, equipamento de transmissões e outras coisas. O Silva conferiu e recebeu todo o equipamento de cozinha e géneros alimentícios armazenados. O Duarte, não me lembro, provavelmente deambulou por ali. Eu fiquei com a cantina, algo surpreendido por verificar que o grosso da existência era constituído por pilhas de grades de cerveja e caixas com tabaco. Tudo o mais se resumia a meia dúzia de artigos e o frigorífico alimentado a petróleo, cuja transferência incluía uma rápida explicação do seu funcionamento e manutenção, que procurei perceber.
- E é se quiseres ter cerveja fresca! Avisaram.
Os velhinhos tinham pressa em partir, não parecendo incomodados, nem com a hora tardia, nem com o tempo ou dureza do percurso, tal era o desejo de sair dali. Conferi a lista pelos artigos que compunham o stock da cantina, assinei a guia de entrega e só algumas semanas depois é que verifiquei que a soma estava propositadamente aumentada em 1000 escudos. Era um truque muito usado nestas passagens de responsabilidade e para as quais não tinha sido alertado. Afinal, eu era um simples atirador de infantaria e não estava previsto ter de me responsabilizar pelo funcionamento de uma cantina onde se vendia tabaco, cerveja e outras guloseimas, para além de alguns artigos de higiene pessoal.
As berliets partiram, engolidas pela noite, levando de volta o grupo rendido, ao mesmo tempo que a algazarra ia esmorecendo, aos poucos, até restar um silêncio absoluto, que me deixou a estranha sensação de ter sido abandonado algures no fim do mundo. A realidade visível, pouco mais era do que um barracão comprido, coberto a folhas de zinco que abarcavam parte do estreito terreiro fracamente iluminado, onde desembocavam as portas que davam acesso à messe, cantina, caserna do pessoal e refeitório.
A escuridão não deixava ver mais. Pela minha parte, não tinha noção do que ficava à direita ou à esquerda, para que lado era o norte ou o sul. Apenas sabia que nas traseiras, para lá da cozinha, corria o rio Cuando. Os velhinhos avisaram para não nos aventurarmos por lá, no escuro. Corríamos o risco de cair pelo barranco e sermos apresentados a algum dos jacarés que habitavam o rio. Pelo sim pelo não e dado o adiantado da hora, ficámo-nos pela exploração da nossa nova residência. Três pequenos quartos, mais um, à entrada, com uma mesa ao centro, servindo de posto de comando, sala de jantar e local de ocupação das horas de ócio daquele improvisado estado-maior. A um canto, uma minúscula casa de banho bem equipada: uma sanita, um lavatório e um bidão de 200 litros cheio de água. Ah… e um balde. Ali não havia água canalizada e a utilidade do balde era óbvia. Servia para retirar água do bidão e despejá-la onde fosse necessário: na sanita, no lavatório ou por cima de nós próprios, numa espécie de chuveiro em cascata, o que cada um fez, à vez, antes de nos esticarmos em cima das camas, iguais a todas as enxergas que conheci na tropa, convencido de que, com o cansaço de tão longa viagem, adormeceria de imediato.
Não foi assim. Era a primeira vez que dormia no teatro de operações e ninguém me tirava da cabeça que a guerra estava ali ao lado. Discutíramos a defesa, distribuíram-se as sentinelas, ordens e instruções foram dadas numa improvisação de defesa e segurança do pessoal e das instalações, agora ocupadas por militares inexperientes e desconhecedores do terreno.
Procurei dormir. Contudo, a cabeça cheia de temores, incertezas, raciocínios e recapitulações da vertigem dos últimos dias e talvez o estranhar da cama, não o permitiam, não obstante o cansaço a isso aconselhar. Revolvendo-me na cama à procura da melhor posição, tentava em vão esvaziar a cabeça que persistia em imaginar cenários de ataque ao aquartelamento, sem me decidir sobre qual o lado de onde seria mais provável o inimigo atacar: se do rio, se da esquerda, se da direita. E se tal acontecesse, como deveríamos reagir? Instintivamente tacteei a arma, para me certificar que continuava ali, bem ao lado, junto à cabeceira, onde dormia e dormiria sempre, durante os longos meses que por ali andei. Adormeci finalmente, vencido pelo cansaço, já com a madrugada prestes a anunciar o amanhecer.

17 comentários:

Rufino Fino Filho disse...

MAGNÍFICO!
ABRAÇO
RUFINO

Anónimo disse...

Descrição bastente pormenorisada e cheia de realismo. Gostei.

Pedro Cabrita disse...

Meu Caro Cardoso

Com um abraço por este retorno saboroso aos nossos vinte e poucos anos e ao percurso que, juntos, trilhámos e escrevemos a História.
Nestes seus escritos, com que me venho deliciando, percorri o tempo e a boa memória que guardo no aconchego do meu peito, onde " a minha tropa" ocupa um lugar de privilégio, que preservo com o carinho fraterno, que nos há-de manter juntos até ao fim.
A N´riquinha é um marco na minha vida, algo que poucos de vocês entenderão.
A Comp. 3441, foi uma segunda família que, com os galões e divisas que nos impuseram, nos procuraram dividir sem sucesso.
Quebrado o espartilho, todos vamos, em cada ano, sabendo expressar que o "camarada" militar jamais se sobrepôs ao companheiro e amigo civil.
Continue a deliciar-nos com a sua escrita direita, intensa e colorida. Já nem me lembrava bem de algumas cores da N´riquinha...

Só estou a achar estranho que o capitãozeco, que vos torturou bem uns 28 meses, não apareça por aqui montado no seu Jeep (50 L/100) a distribuir ordens militares de comandante sem penacho...
Eu sei.
Uma forma amiga de me preservar...

Aquele abraço.

Pedro Cabrita

PS
Dei-me ao desplante de "roubar" algumas fotos, que gostaria de colocar no álbum fotográfico de meu blogue, se não vir inconveniente nisso.

Egidio Cardoso disse...

Caro amigo Cabrita

É claro que é sempre agradável, ver que alguém aprecia aquilo que se escreve, não obstante se esteja a falar de algo que nos diz muito, facilitando a associação de imagens ao que se está a ler.
Nesta minha viagem ao passado e às aventuras da nossa então quase adolescência, ainda não houve tempo para falar de muitos companheiros e o pior é que, passado todo este tempo já nem me lembro de muitos deles. Contudo, no momento em que a narrativa está colocada, ainda éramos um tanto ou quanto desconhecidos uns dos outros. Haverá oportunidade de falar de muitos deles, especialmente do actor principal, “o capitão Cabrita”. O tempo exerce sobre a memória um efeito curioso: apaga o supérfluo e apenas mantém gravados episódios marcantes, bons e maus, mesmo que insignificantes. Creio que, relativamente ao comandante da companhia, não existiram episódios maus que tivessem merecido ocupar espaço na nossa memória.
Ah! … as fotografias. Use e abuse. São nossas. Nos episódios seguintes haverá mais

Um grande abraço.
Cardoso

Gabriel Costa disse...

Caro capitão Cabrita:

Espere pela sua vez para levar "porrada".
Um abraço
Gabriel

Anónimo disse...

De: MANUEL CREEIA RODRIGUES
1º CABO TELEGRAFISTA Nº.4952/63
COMPANHIA 610.
TAmbém eu estive lá e em condições precárias, ou seja, em tendas de campanha.
foi nessa altura que se começou a construir (1965)o quartel.
Nesse tempo ocupavamos o tempo em belas caçadas e em buscar água a 30 kilómetros lá no rio onde os hipópotamos viviam.
Estive de visita a Mavinga e à Luiana.....
Conhecem?
Nesse tempo ainda nem se falava em terrorismo por aquelas bandas.
Cumprimentos....
mcr579@hotmail.com
para qualquer contacto

Egidio Cardoso disse...

Claro que conhecemos Mavinga. Andámos por aquelas bandas dezoito meses. Deu para quase acharmos que conhecíamos tão bem a zona como conhecemos a nossa terra.
Também nós, durante alguma tempo, fazíamos grandes viagens para ir à água, até que nos arranjaram uma bomba que a extraía de um buraco.
Continue a ler-nos, certamente continuaremos a falar daquelas paragens, longe de tudo, onde ainda existia muita caça, mas a guerra não nos deixava andar na mata com a liberdade que o amigo refere.

Anónimo disse...

Eu também estive em N'eriquinha!
Desde fins de Janeiro de 1968.Parti de Luanda de autocarro até Nova Lisboa depois comboio até ao Luso e finalmente de avião (Nordatlas) até N'eriquinha.
O meu Batalhão era o 1929 e a Companhia a 1779 - Lenços Negros.
Recordo com muitas saudades os bons momentos que passei na zona.
Os maus....também os recordo especialmente pelas "baixas" que tivemos,embora a minha Companhia só tivesse tido uma baixa em combate (um Furriel Mil. que tinha sido transferido para a nossa Companhia,por castigo) e uma outra devido a um estúpido acidente com a G3.
Lembro-me do Rivungo - com a Zambia em frente........
Fui lá várias vezes......fazer operações na zona,levar abastecimentos ao grupo de combate e fuzileiros.
Um dia contarei a minha própria experiência...........hoje não,já estou demasiado emocionado.
Até breve amigos.
Aristides Costa
Tábua

Egidio Cardoso disse...

Caro Aristides.
Bem vindo ao nosso cantinho de recordações.
Cá o esperamos.

Um abraço
EC

Anónimo disse...

Foi com agradável surpresa, saudade e nostalgia que dei de caras com este blog. Acabei de ler o texto principal, bem como alguns comentários. Chamo-me Luís Ferreira, fui comandante do Destacamento da Marinha e estive no Rivungo de 1972 a Outubro de 1974. Visitei variadas vezes N'Rikinha. Convivi com muitos camaradas do Exército, oficiais, furriéis e praças, e com os quais estabeleci laços de profunda camaradagem e amizade. Na altura o comandante da companhia era o capitão Bastos Silva. Um abraço a todos, conhecidos ou que tenham passado por aquelas paragens.

Egidio Cardoso disse...

Olá Luís.
Bem-vindo ao nosso repositório de memórias.
O capitão Bastos Silva terá comandado a companhia que nos rendeu na Neriquinha.
A 3441, comandada pelo capitão Pedro Cabrita, saiu dali em Abril de 1973, depois de 18 meses na Neriquinha e Rivungo.
A memória já não chega para recordar nomes. Mas a verdade é que, em 72 e 73, ainda por ali andámos.
Lembra-se do ataque que a lancha sofreu numa incursão em direcção ao Luiana, nos princípios de 1972? Era você o comandante do destacamento de marinha do Rivungo nessa altura ou foi o seu antecessor?
De qualquer forma, visite-nos de quando em vez, as histórias vão continuar e uma delas será sobre o ataque à lancha que teve como desfecho infeliz a morte (desaparecimento) de um dos marinheiros, o “Russo”.
A história será ilustrada com fotografias da lancha, do bote e do próprio Russo.

Um abraço
Egídio Cardoso

Anónimo disse...

Caro Cardoso,
Esta troca de escritos, está a rejenuvescer-me uma pipa de anos. Pelo menos, espiritualmente. o Ataque em 1972 foi sofrido pela guarnição do meu antecessor, o Valério, o qual, posteriormente, enlouqueceu tendo protagonizado uma série de peripécias, entre as quais um tristemente célebre acto de vandalismo sobre uma chamada santa de Arcozelo. Cacimbo todos tivemos de alguma forma, mas com esse nosso camarada a afectação foi claramente patológica. Por acaso também sofremos uma flagelação um pouco a Norte da Luiana, junto a uma povoação zambiana chamada Senzimbel.Felizmente apenas tivemos dois feridos ligeiros: o marinheiro Artilheiro Silva, já falecido e o Fuzileiro Silva, municiador da Oerlington. Soube da história do Russo. Infelizmente a guerra deixou sequelas que só os próprios e/ou as famílias sabem e sentem. Caso me queiram contactar, o que agradeço, o meu e-mail é: vieiraferreira@gmail.com.
Um abraço e obrigado por esta partilha de recordações

Anónimo disse...

Caro Cardoso,
Lembrei-me agora que, quando cheguei ao Rivungo, o comandante do grupo de combate era o alferes Aranha, julgo ser esse o seu nome. Era um tipo muito delicado. Aqui para nós que ninguém nos ouve, quando nos conhecemos. facultei-lhe e a um furriel, que não recordo o nome, uns livros que levava e , que seguramente, o pessoal da pide era capaz de não achar grande piada. O curioso é que à de vez em quando passeávamos pela "cidade", em frente ao posto da dgs e o Aranha levava um livro nas mãos, nas calmas, como se não fosse nada com ele. Bons tempos. Também gostava de rever o Aranha. Se alguém souber o seu contacto, agradecia.
Um abraço

Egidio Cardoso disse...

De facto, lembro-me bem do Valério. Relativamente à sua personalidade, se a minha memória não me atraiçoa, não me surpreende os distúrbios psíquicos que refere. Contrariamente ao Tenente que o antecedeu, o Valério era homem que não agradava, para além de andar em permanente conflito com os seus homens. Creio que foi esse conflito que o levou a impor a tal viagem ao Luiana quando faltava pouco mais de uma semana para o fim da comissão do efectivo que ali estava. Nessa altura, eu estava na Neriquinha e lembro-me de passarem por ali a caminho de Luanda, no fim da comissão, exibindo os sinais da escaramuça, alguns de muletas, outros coxeando, mas quase todos com mazelas.
Quanto ao alferes Aranha é verdade que fazia parte da nossa companhia. É médico e vive em Lisboa. A história do livro e da DGS é típica da sua personalidade, na altura e agora. Já tive o contacto dele mas perdi-o. Contudo o capitão Cabrita, cujo mail pode encontrar neste blog, está em contacto com ele, como também dos outros alferes que passaram pelo Rivungo (Oliveira e Correia).
Já agora, não sei se já leu as histórias aqui postadas com o título: “O Rivungo”, “O Máquina” e “Natal no Rivungo”. Contam episódios anteriores à sua chegada àquele local, mas certamente recordará alguns pormenores.
Abraço

Pedro Cabrita disse...

Endereço de correio electrónico do ex-alferes Eduardo B. Aranha, agora médico.

eduar@netcabo.pt

P. Cabrita

Anónimo disse...

Cardoso e Cabrita,
Obrigado pela vossa gentileza. Já li e reli os artigos, não só pela qualidade dos mesmos, mas também pelo afecto que as ambiências nelas descritas, nos suscita. Creio que ainda conheci o "Máquina", e recordo alguns pormenores descritos no post. Estive 18 meses no Rivungo, tendo destacado em Outubro de 1974. Além do Aranha , furriéis e praças do grupo de combate devo ter conhecido mais gente da vossa companhia, que tenha por lá passado nesse período, mas que não recordo pelos contactos terem sido esporádicos e fugazes.
Um abraço

Egidio Cardoso disse...

Caro Luis
Se esteve no Rivungo até Outubro de 1974, deve lembrar-se do António Castilho Dias.
parece que comandou o destacamento de marinha do Rivungo nessa altura, em substituição do titular.
Veja o blog "Eu sou louco" ou vá directamente para o endereço:
"http//eusoulouco.blogs.sapo.pt/2005/06/".
Detenha-se sobre os post's:
"Sobrevoando a savana"
"O cortador de carnes verdes"
"Diplomacia no Rivungo"
"Cena de caça no Bambangando

Abraço