
Os dias que se seguiram foram de verdadeira euforia. Bem, euforia para nós, que estávamos de partida, já que o semblante dos recém-chegados tendia mais para uma circunspecta e apreensiva sisudez, denotando apreensões e preocupações que a cerveja, a correr às dúzias, ia minimizando à medida que dissolvia arrelias e angústias.
Não sei como nos arrumámos todos naquele espaço formatado para um número limitado de homens, mas o facto é que, durante quase uma semana, a convivência entre veteranos e maçaricos foi sendo comandada pela sobranceria dos velhinhos que, ancorados na experiência de dezoito meses de savana, se arvoravam em donos da quinta, em contraponto com a quase subserviência dos novatos aturdidos pela aridez hostil que nos rodeava

Os dias que se seguiram, numa simbiose entre a euforia de uns e o “lá terá que ser” de outros, foram de transição, cumprindo-se a cíclica transmissão do testemunho, numa repetição, quase fotocopiada, do que acontecera dezoito meses antes.
Nessa altura, como agora, cumprindo os formalismos impostos, foi passada a responsabilidade por aquelas instalações com tudo o que por ali havia; eram os equipamentos, as viaturas e os geradores, mais os tachos e as marmitas, sem esquecer os stocks de comes, o armazém dos bebes, os medicamentos, os unguentos e os xaropes, as caixas disto, os pacotes daquilo e toda uma multiplicidade de pinchavelhos, parafusos, insignificâncias e sei lá mais o quê. Até a responsabilidade pelas antenas de rádio exigia recibo. Só faltou fazer a entrega do ar grosso e sobreaquecido que ali se respirava. E tudo foi conferido, certificado, contado e recontado, verificado e confirmado, garantido e acertado. E de tudo foram passadas guias e recibos, tudo assinado e arquivado, em duplicado e triplicado, ficando os velhinhos livres de responsabilidades, que assim foram passadas para cima dos ombros dos maçaricos.

- Olha que as chanas são traiçoeiras!
Chamava-se a atenção para o poder esgotante da areia seca das picadas e suas peculiares artimanhas, explicavam-se as manias do cacimbo e a intensidade das chuvas diluvianas que se lhe opunham, falava-se da abundância de caça, da pose majestática das palancas, das características das gungas, da graciosidade dos songues e do galope desajeitado dos guelengues e dos caixotes. Explicava-se a cultura daquelas gentes, as peculiaridades dos seus múltiplos temores e superstições, as minudências e particularidades dos seus hábitos e tudo o mais que se foi aprendendo com o tempo. Tudo foi entregue, incluindo os putos que lavavam a roupa, algumas mulheres do kimbo e ainda os percevejos das camas, as moscas sarnentas e as melgas que não nos largavam por nada deste mundo.
Aos poucos, à medida que iam sendo passadas responsabilidades, cortavam-se ligações, libertavam-se tensões e alimentavam-se expectativas de melhores dias. Mentalmente dizia-se adeus a tudo aquilo que foi o nosso mundo, o nosso cantinho de aconchego precário durante aqueles meses de provações e sacrifícios. Todas as agruras daquela espinhosa missão se transformaram, num ápice, em passado e, com isso, perderam toda a sua importância e significado.


Dez de maio do ano de 1973. O tão esperado dia chegou, finalmente. O almoço foi servido e engolido, mais do que degustado. A ansiedade interferia com o apetite e a aproximação da hora da partida apressava toda a gente. Foi um rebuliço de carregar sacos e malas, um corre‑corre para as viaturas, como se todos tivessem medo de perder a boleia que nos haveria de tirar dali para fora. Reservei um lugar na cabine de uma MAN e arrumei as tralhas sobre a carroçaria onde muitos já se haviam acomodado.


Pela primeira vez saíamos da Neriquinha para não mais voltar. Aquela viagem teria um só sentido. Nem adeus disse. Para quê? Aquela terra não era minha. Apenas estava ali de passagem.
Finalmente deixávamos de ser metecos em terra estranha. Outros acabavam de tomar o nosso lugar.
Finalmente deixávamos de ser metecos em terra estranha. Outros acabavam de tomar o nosso lugar.
7 comentários:
Excelente texto Egídio.
Parabéns.
Abraço
Pedro Cabrita
Obrigado.
Às vezes sai, assim, sem custar muito. Noutras, a coisa custa.
Um abraço.
Não há dúvida, este estará entre os melhores e mais inspirados textos que já teclaste!!!
Ainda bem que não enveredaste pela prosa lamechas e pouco verdadeira da partida de outros cronistas!
Uma recordação que a narrativa me trouxe à memória:
A "baixela" das messes era constituída por pratos e copos de pirex incolor e foi comprada à companhia que rendemos e passada por idêntico preço(?) aos "maiques". Depois do almoço do dia da partida estava a dita arrumada na prateleira da messe quando desabou estrondosamente. Creio que nada se salvou e valeu a circunstância de já estar liquidada a quantia acordada para e sua cedência.
Abraço
Morais
A minha memória está mesmo danificada. Não me lembro desse episódio.
Só mais um pormenor:
Cerca de metade da companhia seguiu via Nord no dia em que chegou o primeiro contingente. Não recordo qual o itinerário que tomaram (pode ser que alguém dê a informação em falta). Assim, o espaço disponível foi chegando para arrumar o pessoal. Os restantes, em que me incluo, saíram em "coluna" conforme relatas. Esperamos pela epopeia que já terás na forja.
Morais
Excelente, como sempre. Cumprimentos
Obrigado. A ver vamos, se os temas que se seguem ajudam na inspiração
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